Aqui está uma pintura da artista simbolista Remedios Varo, chamada
"Bruja que va al Sabath" (1957). O longo cabelo ruivo tem um
significado de poder para Remedios e também para outras culturas. Aqui, a Bruxa
aparece em uma forma gentil e emplumada, que se assemelha muito à
“ave-do-paraíso” que ela traz na mão e que coincidentemente tem suas feições (e
que me parece estar saindo de dentro dela), enquanto a outra mão segura uma
lanterna brilhante. Ela é claramente uma Bruxa de bom gosto e isso se vê com
suas delicadas meias de “flor de lis”.
Como diz o título, ela está indo a um Sabath, que
acontece logo após a sexta-feira e é associada à ideia do Sabbhat, “festim em
que as Bruxas se reúnem e banqueteiam em presença do Demônio” como ficou
conhecido a partir da época medieval. Também às sextas, à luz da Lua cheia, os
amaldiçoados lobisomens se transformam e os vampiros propalam-se em vôos
sedentos de sangue, à procura de suas vítimas.
Na mitologia assírio-babilônica, data-se além de 8 mil
anos a crença de que Sin, a Lua, tornava-se indisposta a cada plenilúnio,
quando então se observava o "sabattu", período de recolhimento dos
homens em respeito à Grande Deusa e claro, às suas mulheres. Veja-se que provém
da Antiguidade remota o útil conselho dado aos maridos para que estes não
provoquem suas mulheres em fase pré-menstrual (pra ser bem sincero, é melhor
não provocar em fase nenhuma). Durante a indisposição de Sin, guardava-se o
sábado, que primitivamente era mensal, dia considerado nefasto, no qual não se
autorizava qualquer tipo de trabalho, nem mesmo viajar ou cozinhar alimentos.
Sábado, em português, vem do latim sabbatum, que por sua
vez foi emprestado do grego sábbaton. Este seria proveniente do hebraico
sahabbat, que deriva do verbo sabat (parar). Em meio às divergências
semânticas, muitos acreditam que a Igreja do amor, em sua obstinada caça às
bruxas, tenha julgado conveniente escolher um nome da tradição judaica,
especificamente aquele que denota o período de oração que se inicia ao pôr do
sol das sextas-feiras, para nomear o “conclave das feiticeiras”. Agindo assim,
transformaria judeus, bruxas e demais hereges, em inimigos comuns da fé cristã,
justificando assim os milhares de execuções e torturas... muito conveniente,
não é mesmo? Além disso, no início das perseguições, denominava-se “sinagoga” o
local escondido nas florestas destinado à reunião das bruxas.
Um pouco mais de pesquisa e encontramos o termo grego
sabba-éos, literalmente “ Sabbhat Divino”, relacionado às sabátidas, festas
dedicadas a Sabácio, o Deus Cabrito, Divindade da Ordem dos Cabiros, conhecida
na Trácia e na Frígia, com atributos similares ao Deus Dionísio, ainda que não
tão popularizada quanto este. As sabátidas já ocorriam anteriormente a Moisés e
ao judaísmo; e a seu deus eram consagrados o trigo e a cevada, da qual se
fermentava uma bebida inebriante, servida aos presentes.
Sabácio era representado com chifres na cabeça,
semelhante a Dionísio, Pan e Príapo que eram igualmente cultuados nas
sabátidas, ambos representados pela figura de faunos ou bodes, senão pelo
"falo" espécie de bastão que todos traziam à reunião, invariavelmente
noturna, na qual banqueteavam os convivas, sentados no chão sobre peles de
animais caprinos, com as quais também se cobriam encarnando seu comportamento e
imitando seus berros.
Nesse culto agrário, uma virgem nua, em alusão à Deméter
(Deusa da colheita, da fertilidade e da agricultura), deitava-se sobre a mesa
ritualística e recebia sobre o ventre as oferendas, geralmente o trigo e
cerveja, sendo ela própria após o banquete, oferecida à “divindade caprina dona
da festa”, sempre encarnado por um sacerdote com máscara de chifres, vestido
com pele de cabra, assim como os demais presentes, onde se faziam deliciosas
orgias até o nascer do novo dia. No fim, a desvirginada do altar arrancava com
sua boca a cabeça de um sapo e a cuspia ao chão, em alusão às Mênades possessas
que dilaceravam os animais conforme descreveu Eurípedes de modo perturbador nas
Baccantes. Estes eram os ritos originais pagãos, cujas festas celebravam no
pago, isso é, no próprio povoado, geralmente nos campos de suas comunidades...
muitíssimo diferentes dos ritos da atualidade, onde “geralmente” a celebração
se dá num apartamento, via whatsapp... sem virgens nuas arrancando a cabeça de
sapos, orgias ou bebedeiras épicas.
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