10/30/2020

Bruja que va al Sabath


Aqui está uma pintura da artista simbolista Remedios Varo, chamada "Bruja que va al Sabath" (1957). O longo cabelo ruivo tem um significado de poder para Remedios e também para outras culturas. Aqui, a Bruxa aparece em uma forma gentil e emplumada, que se assemelha muito à “ave-do-paraíso” que ela traz na mão e que coincidentemente tem suas feições (e que me parece estar saindo de dentro dela), enquanto a outra mão segura uma lanterna brilhante. Ela é claramente uma Bruxa de bom gosto e isso se vê com suas delicadas meias de “flor de lis”.

Como diz o título, ela está indo a um Sabath, que acontece logo após a sexta-feira e é associada à ideia do Sabbhat, “festim em que as Bruxas se reúnem e banqueteiam em presença do Demônio” como ficou conhecido a partir da época medieval. Também às sextas, à luz da Lua cheia, os amaldiçoados lobisomens se transformam e os vampiros propalam-se em vôos sedentos de sangue, à procura de suas vítimas.

Na mitologia assírio-babilônica, data-se além de 8 mil anos a crença de que Sin, a Lua, tornava-se indisposta a cada plenilúnio, quando então se observava o "sabattu", período de recolhimento dos homens em respeito à Grande Deusa e claro, às suas mulheres. Veja-se que provém da Antiguidade remota o útil conselho dado aos maridos para que estes não provoquem suas mulheres em fase pré-menstrual (pra ser bem sincero, é melhor não provocar em fase nenhuma). Durante a indisposição de Sin, guardava-se o sábado, que primitivamente era mensal, dia considerado nefasto, no qual não se autorizava qualquer tipo de trabalho, nem mesmo viajar ou cozinhar alimentos.

Sábado, em português, vem do latim sabbatum, que por sua vez foi emprestado do grego sábbaton. Este seria proveniente do hebraico sahabbat, que deriva do verbo sabat (parar). Em meio às divergências semânticas, muitos acreditam que a Igreja do amor, em sua obstinada caça às bruxas, tenha julgado conveniente escolher um nome da tradição judaica, especificamente aquele que denota o período de oração que se inicia ao pôr do sol das sextas-feiras, para nomear o “conclave das feiticeiras”. Agindo assim, transformaria judeus, bruxas e demais hereges, em inimigos comuns da fé cristã, justificando assim os milhares de execuções e torturas... muito conveniente, não é mesmo? Além disso, no início das perseguições, denominava-se “sinagoga” o local escondido nas florestas destinado à reunião das bruxas.

Um pouco mais de pesquisa e encontramos o termo grego sabba-éos, literalmente “ Sabbhat Divino”, relacionado às sabátidas, festas dedicadas a Sabácio, o Deus Cabrito, Divindade da Ordem dos Cabiros, conhecida na Trácia e na Frígia, com atributos similares ao Deus Dionísio, ainda que não tão popularizada quanto este. As sabátidas já ocorriam anteriormente a Moisés e ao judaísmo; e a seu deus eram consagrados o trigo e a cevada, da qual se fermentava uma bebida inebriante, servida aos presentes.

Sabácio era representado com chifres na cabeça, semelhante a Dionísio, Pan e Príapo que eram igualmente cultuados nas sabátidas, ambos representados pela figura de faunos ou bodes, senão pelo "falo" espécie de bastão que todos traziam à reunião, invariavelmente noturna, na qual banqueteavam os convivas, sentados no chão sobre peles de animais caprinos, com as quais também se cobriam encarnando seu comportamento e imitando seus berros.

Nesse culto agrário, uma virgem nua, em alusão à Deméter (Deusa da colheita, da fertilidade e da agricultura), deitava-se sobre a mesa ritualística e recebia sobre o ventre as oferendas, geralmente o trigo e cerveja, sendo ela própria após o banquete, oferecida à “divindade caprina dona da festa”, sempre encarnado por um sacerdote com máscara de chifres, vestido com pele de cabra, assim como os demais presentes, onde se faziam deliciosas orgias até o nascer do novo dia. No fim, a desvirginada do altar arrancava com sua boca a cabeça de um sapo e a cuspia ao chão, em alusão às Mênades possessas que dilaceravam os animais conforme descreveu Eurípedes de modo perturbador nas Baccantes. Estes eram os ritos originais pagãos, cujas festas celebravam no pago, isso é, no próprio povoado, geralmente nos campos de suas comunidades... muitíssimo diferentes dos ritos da atualidade, onde “geralmente” a celebração se dá num apartamento, via whatsapp... sem virgens nuas arrancando a cabeça de sapos, orgias ou bebedeiras épicas.

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