Eis Philemon, (vem do grego Φιλημα e se traduz como - o amoroso) uma figura que apareceu a Jung em um sonho em 1913. Em - Memórias, Sonhos, Reflexões, ele contou o sonho em que essa figura apareceu pela primeira vez. Jung viu um céu azul marinho coberto por torrões marrons de terra que pareciam estar se quebrando. Daí ele viu um velho com asas de martim-pescador e chifres de touro, voando pelo céu, carregando um molho de chaves. Depois do sonho, Jung pintou a imagem, para que ela ficasse viva em sua mente. Durante esse período, Jung ficou impressionado com a sincronicidade de encontrar um “guarda-rios” morto (pássaro raramente visto em Zurique), em seu jardim à beira do lago. Depois disso, Philemon desempenhou um papel importante nas fantasias de Jung, que lhe representou como uma "visão superior" e o mencionou como um Guru.
Relatos parciais desse período podem ser encontrados nas notas de seu seminário dado em 1925 sobre Psicologia Analítica (elaborado por Cary Baynes) e também na biografia de Aniela Jaffé, Memórias, Sonhos, Reflexões, publicada postumamente. Nelas, Jung narrou algumas de suas experiências decisivas e falou sobre algumas das figuras fantásticas que havia encontrado. Essas fantasias também faziam parte das narrativas que ele registrou em seu agora lendário: Livro Vermelho. Uma das figuras mais significativas é Philemon. Em suas memórias, Jung relatou que costumava conversar com Philemon enquanto ele passeava no jardim de sua casa à beira do lago em Küsnacht. Falando com Aniela Jaffé, sua grande amiga e colega, ele lembrou: “[Philemon] era simplesmente um Conhecimento Superior, e ele me ensinou objetividade psicológica e a realidade da alma. Ele formulou e expressou tudo o que eu nunca havia pensado”.
A figura da fantasia de Jung foi baseada na figura de Philemon, que apareceu nas “Metamorfoses de Ovídio” e no “Fausto de Goethe”. Nas Metamorfoses, Ovídio narra como Júpiter e Mercúrio vagavam disfarçados de mortais na região montanhosa da Frígia. Procurando um lugar para descansar, eles foram barrados em mil casas. No entanto, um casal de idosos, Philemon e Baucis, gentilmente convidou esses estranhos para sua humilde cabana. (e essa epopéia vale muito a pena ser lida).
Já Goethe, faz Fausto construir uma cidade em um terreno recuperado do mar. Para cumprir essa tarefa, Fausto diz a Mefistófeles que deseja que Philemon e Baucis, que viviam nesta terra, se mudem. Para o maior horror de Fausto, em vez de fazê-los se mudar, Mefistófeles decide queimar a cabana com Philemon e Baucis dentro. O Fausto de Goethe causou uma impressão tremenda em Jung e teve um significado vitalício para ele. Ele se sentiu pessoalmente implicado pela destruição dessas figuras humildes e reverentes e sentiu que era sua responsabilidade expiar esse crime e evitar sua repetição. A cura dessa “divisão faustiana” se tornaria um tema central na obra da vida de Jung.
Em sua torre em Böllingen, Jung homenagiou Philemon. Sobre o portão, ele esculpiu a inscrição “Philemonis Sacrum - Fausti Poenitentia” algo como "Santuário de Philemon - Penitência de Fausto".
Em uma das salas em Böllingen, ele pintou um enorme mural
do Philemon alado, essencialmente reproduzindo a pintura do Livro Vermelho. Em
uma carta a Paul Schmitt em 1942, Jung escreveu: "Eu assumi Fausto como
minha herança e, além disso, como advogado e vingador de Philemon e Baucis,
que, ao contrário de Fausto (o Super-Homem), são as hostes vivas dos Deuses” e
também "Ele conseguiu unir o que foi dividido, isto é, unir o que está
Acima e o que está Abaixo." (isso me parece uma referência à Tabula
Smaragdina, de Hermes Trismegistus).
Concluirei com uma das minhas declarações favoritas do Livro Vermelho: "O caminho Mágico surge por si mesmo. Se alguém abre o Caos, a Magia também surge. Pode-se ensinar o caminho que leva ao Caos, mas não se pode ensinar a Magia”.

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