10/02/2021

Santo Agostinho e o Tempo


É interessante observar as pessoas falando sobre o Tempo, sobre desvelar o futuro com seus oráculos infalíveis, acessar o passado em viagens espiritualistas, viver no presente, viver O agora, sobre como o tempo passa rápido ou lentamente (dependendo das circunstâncias) e etcetera.

Mas eis que vem Santo Agostinho, no livro XI das Confissões e nos traz um pensamento magnífico, uma meditação sobre o Tempo. Magnífico pois nessa visão ele dissolve o conceito que concebemos de tempo pois para ele, a concepção subjetiva do tempo refuta as ideias de que o tempo seria uma criação mágica e fenomênica, uma realidade cosmológica, uma medida de movimentos multiformes, uma realidade homogênea e objetiva, na qual as coisas estão inseridas em uma noção derivada das relações espaciais e cinemáticas (velocidades). Agostinho nos traz o pensamento de que o tempo seria uma construção ou elaboração do Espírito, sem existência fora dele, em que o passado não é nada, não tem materialidade e por tanto não existe. E o futuro tão pouco, pois o futuro também não tem existência material e portanto, não é. O que nos resta então é o presente. Mas estranhamente, o presente também não é, e portanto, não existe. Pois “se fosse”, permaneceria e seria a eternidade, pois para ser tempo, teria que deixar “de ser” (o momento) e transformar-se em passado.

Então perceba que, para que o “ser seja”, ele não pode “deixar de ser”, então se o presente “é” ele tem que continuar presente e se for presente que vai continuar presente ele não pode sair dali e isso seria a eternidade, e na eternidade nada passa, tudo é presente, ao passo que o tempo nunca é “todo presente”. Então perceba que o passado é impelido pelo futuro e que todo o futuro está precedido dum passado e todo o passado e futuro são criados e dimanam “de uma Força misteriosa (alguns chamariam de Deus)” que sempre É presente. Assim, para que o presente possa “ser” ele precisa “não ser” ou “deixar de ser” e não virar passado. Portanto, estamos inseridos num presente que “não é” porque está na sua índole temporal tornar-se passado. Percebeu que não tem saída porque eu sou temporal e o tempo tem que ser, já que este é o quadro material da minha existência finita? Então o tempo tem que ser e, sendo, eu pergunto: o que é o tempo? Já que o passado não é, o futuro não é e o presente não é??

Santo Agostinho reflete que o passado não existe mais, o futuro ainda não chegou e o presente torna-se pretérito a cada instante. O que seria próprio do tempo é o “não ser”. O passado existe por força de minha memória, no presente. Da mesma forma, o futuro existe, por força da expectativa de que as coisas ocorrerão no presente. E o presente seria a percepção imediata do que ocorre. Então a soma dos tempos são três: presente das coisas passadas, presente das coisas futuras e presente das coisas presentes. Portanto, o tempo é subjetivo pois o modo como nos referimos às coisas depende totalmente de elementos internos (memória, expectativa, sentimentos), a apreensão ontológica do tempo não é possível. O que colocamos em relações temporais são impressões mentais, nada mais que isso - tempo passado, memória; tempo futuro, expectativa; tempo presente, passado presente e futuro presente.

Então Agostinho explica que:

O Passado não é, pois é o tempo que se afasta de nós, é tudo que já não é mais palpável, simplesmente porque já se foi.

O Presente é o “agora”, mas se permanecesse sempre presente e não se tornasse passado, não seria mais tempo, e sim eternidade. Então se o presente precisa se tornar passado para ser tempo, ele não é, porque o que é não deixa de ser.

O Futuro também não é, já que ainda não existe, e quando existir deixará de ser futuro e passará a ser presente, que tão logo já será passado.

E completa: “é impróprio afirmar que os tempos são três: pretérito, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer que os tempos são três: presente das coisas passadas, presente das coisas presentes, presente das coisas futuras. Existem, pois, estes “três tempos” (que não são) na minha mente que não vejo em outra parte: lembrança presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras.”

E só pra constar, Agostinho nasceu em Tagaste, Numídia, na África em 354 e escreveu suas Confissões em torno do ano 385... Consegues imaginar o jeito que essas pessoas viviam nessa época, os recursos que tinham? E esse Iluminado tirou isso apenas de sua mente e até hoje, com toda nossa tecnologia e suposto defecante avanço intelectual nós simplesmente não conseguimos resolver

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