Me alegra abrir a NatGeo e ver a matéria principal
anunciando que "foram descobertos os segredos das pirâmides",
seguidas de representações gráficas de homenzinhos de tanga com suas cordinhas,
puxando blocos de pedra de 90 toneladas, talhadas com suas ferramentinhas de
cobre, com precisão cinematográfica...
Blocos maciços de mármore e calcário rochoso, sendo puxados por rampas
(ridículas) de areia, com inclinação inimaginável...
Blocos enormes com peso de dezenas de toneladas, sendo transportados em jangadas
precárias a milhas de distância, Nilo acima, sem portos adequados, sem
guindastes...
Escravos bem alimentados (geralmente sorrindo) trabalhando na areia escaldante
do deserto, ajustando tijolos maciços gigantescos com precisão milimétrica...
Seria preciso colocar um bloco daqueles a cada 8 segundos, através de rampas
miraculosas para que, em menos de 20 anos, fosse possível concluir aqueles três
colossos. Isso trabalhando 24hs por dia sem interrupção e não os meros 3 meses
por ano, como é alegado pela lenda.
Segredos revelados? Será?
Mas digamos que decidíssemos construir uma réplica APENAS da pirâmide maior,
Pirâmide de Quéops, usando tecnologia da era espacial, em pleno 2021.
Em primeiro lugar, vamos às considerações: A pirâmide de Gizé ou a Grande
Pirâmide de Quéops possui 230m de lado e 146m de altura e 2,3 milhões de
blocos. Suas paredes possuem inclinações precisas de 51º 51´14”. Seus blocos de
pedra são encaixados milimetricamente, sem espaço para passar um mero pedaço de
papel. Existem câmaras e túneis de acesso altamente complexos e impossíveis até
para a atualidade, que não foram escavados, mas sim deixados vazios durante o
processo de construção (ou seja, foram planejados antes da construção e isso
por si só já seria um milagre) elaborados com precisão absoluta com 0,002 de
desnível. Sabe-se que as pirâmides foram construídas utilizando-se
aproximadamente 80% de pedras de calcário rochoso, de pedreiras distantes cerca
de 80km do Cairo, e que 20% de sua estrutura foi composta de pedras nobres, em
especial o Alabastro e o Mármore Negro, trazidas da pedreira de Assuã,
localizadas a cerca de 725km de Gizé, através do Nilo.
Usando a fórmula do volume de uma pirâmide, temos (B x H )/3 = 2.556.850 m3 de
pedra. Não levando em consideração as câmaras e túneis dentro da pirâmide,
apenas o volume “bruto” dela.
A maior parte do volume da grande pirâmide é construído com blocos inteiros de
Calcário Rochoso. O calcário possui densidade 2,8 portanto, temos que o peso
estimado dessa pirâmide é 7.159.150 toneladas, dos quais 1.431.830 toneladas
vieram de Assuã em jangadas comuns e 5.727.320 toneladas vieram de pedreiras
próximas, localizadas a até 80km de distância. Destes blocos de calcário, cerca
de 6% é constituído de blocos de 70 a 90 toneladas (aproximadamente 5.800
blocos desses da foto 2).
A primeira coisa que precisamos verificar para construir uma réplica idêntica,
são as pedreiras de calcário rochoso. Analisando algumas das maiores pedreiras
de calcário do Brasil, temos o seguinte: uma pedreira de 6 hectares produz
cerca de 14.000 toneladas de blocos no tamanho adequado por ano. Fazendo uma
regra básica, temos uma produção de 65.000 toneladas por ano de blocos se
somadas todas as maiores indústrias de SP.
De posse destes dados, levaríamos 11 anos apenas para extrair todas as pedras
para montar a nossa Pirâmide, (utilizando-se de tecnologia e equipamentos do
que há de melhor e mais moderno e trabalhando os 365 dias do ano). Uma conta
simples que elimina qualquer hipótese das pirâmides terem sido construídas em
20 anos por aqueles homenzinhos de tanga e seus equipamentozinhos da Disney…
Mas, em nossos planos impossíveis, queremos construir a grande pirâmide no
mesmo período de tempo alegado pelas lendas. Se um bando de egípcios semi-nús
de 4.000a.c. com suas cordinhas e suas ferramentinhas conseguiu, nós vamos
conseguir também!
Mas nós temos acesso a alta tecnologia, então vamos usa-la!
Então, para nossas operações terrestres, usaremos o caminhão 31260E da VW, o
maior e mais poderoso caminhão da linha comercial, e um dos mais modernos da
frota brasileira, capaz de carregar até 31 toneladas por vez. Vamos também usar
os guindastes mecanizados, o GR 9.000 da Rodomaq, e assim, conseguiremos
colocar um bloco de pedra de 2,5 toneladas dentro do caminhão em cerca de 10
minutos
Um caminhão 31260E carrega até 12 blocos de 2,5 toneladas de cada vez, o que
demoraria 120 min para carregá-lo. Supondo uma estrada bem asfaltada, em uma
velocidade segura, faríamos o trecho de 80 km em 1h30. Descarregando o caminhão
no local da obra e retornando em segurança, todo o processo de ida e volta
demoraria em torno de 7 horas.
Ao todo, teríamos de carregar 5.383.681 toneladas de pedras em blocos de até 12
toneladas usando nossos caminhões Volkswagen. Fazendo a divisão de 5.383.681
toneladas por 30 toneladas, temos 179.456 viagens. Levando em conta nossa
produção de 1.416-ton por dia, demoraríamos 3.802 dias para fazer todas as
viagens (ou 10,5 anos). Para tanto, utilizaríamos uma frota de 30 caminhões
(que trabalhariam 24 horas por dia, 7 dias por semana, sem feriados ou pausas).
Os outros 4,6 milhões de toneladas em blocos de 90t seriam um problema. Pois os
maiores caminhões da Volvo e Scania carregam apenas 50t, então teríamos de ir
buscar outros caminhões especiais para isso. Existe uma carreta capaz de
carregar até 470 toneladas, mas não achei o nome dela. Para sustentar essa
estrutura, a carreta tem 266 pneus, além de outros 30 dos cavalos mecânicos. O
veículo tem 93 metros de extensão, 8,7 metros de altura e anda a 5 km/h.
Para carregá-la com os blocos de 90t (cabem 6 blocos por vez), demoraríamos
cerca de 2h por bloco, ou seja, 12 horas para carregá-la, 16 horas para viajar
(totalizando 56 horas por trajeto ida e volta) levando 420 toneladas. Para
transportar 343.639 toneladas, precisaremos de 818 viagens, ou seja, seriam
mais 45.808 horas (5,2 anos).
Sabemos que as pedras maiores estão na base da pirâmide, então pelo menos os 9
primeiros anos serão destinados para as pedras de 90 toneladas, então talvez
consigamos fazer um “estoque” de pedras de 12 toneladas e 2,5 toneladas para
usar no futuro, aumentando assim nossa frota de caminhões 31260E nos primeiros
anos e economizando pelo menos uns 3 anos do projeto. Por outro lado, não
adianta carregarmos as pedras menores para a pirâmide pois isto atrapalharia o
desembarque das super carretas.
Outro dos problemas é como fazer a terraplanagem do terreno. Se consultar
algumas das maiores empresas de topografia, vamos descobrir que conseguir um
platô que fique PERFEITAMENTE NIVELADO sobre a areia de um deserto é uma tarefa
impossível.
Pior ainda se planejamos “empurrar” os blocos de pedra com cordinhas e
ferramentinhas… o mero deslocamento das pedras já desnivelaria TODO o trabalho
executado, e a areia deslocada nunca permitiria um encaixe tão perfeito dos
blocos. Ao contrário do que as otoridades querem que acreditemos, não basta ir
empilhando blocos de pedra sobre a areia, pois com o tempo, a areia cede e toda
a estrutura afunda. Em outras palavras, é necessário uma fundação para manter
toda essa estrutura firme (lembrando que as pirâmides não se deslocaram um
milímetro em 19.500 anos… (ops! 6.000 anos, como querem acreditar).
De qualquer maneira, os trabalhos de terraplanagem de uma área deste tamanho
teriam de ser executados por alguma empresa de grande porte, especializada em
barragens. O tempo estimado para deixar o terreno preparado para receber a
nossa pirâmide girou em torno de 1,5 anos.
Substituindo as precárias jangadinhas...
Para nossas operações marítimas, vamos usar um dos maiores navios em operações
aqui no Brasil, da Hamburg-Süd, com capacidade máxima de 1850 Teus (Teu é uma
unidade de medida que representa containers com 20 pés, neste caso, carregados
com 14 toneladas), que é um navio com 200m de comprimento, possui mais de
28.000 toneladas de deslocamento e velocidade de 20 nós. Este navio é tão
grande que existem apenas 5 em operação neste volume.
As docas do porto de Santos, o maior porto do Brasil, são capazes de carregar
em média, 40 containers por hora. Um navio do porte do Aliança Brasil demoraria
então, 46 horas para carregar e 20 horas para viajar (em um total de 132 horas
entre carregar, viajar, descarregar e voltar). Isso, claro, contando que
tivéssemos dois portos do tamanho de Santos à nossa disposição. Sendo um para o
recebimento da carga.
Carregar 1.431.830 toneladas usando este navio demoraria 55 viagens, ou
aproximadamente 310 dias. Menos de um ano. Esta seria a parte mais fácil do
projeto.
Faltou um último detalhe. Os blocos das pedreiras são escavados com erro de até
3% em tamanho. Mas os blocos das pirâmides são perfeitos em suas medidas. Se se
consultar qualquer engenheiro chefe da área, ele nos dirá que é possível
contratar especialistas para recortar no canteiro da obra com precisão milimétrica,
mas este trabalho poderia demorar até cerca de 9 a 12 horas por bloco, para
ficar da maneira 100% perfeita que as pirâmides exigem.
Contas rápidas informam que, para lapidar os cerca de 260.000 blocos apenas das
paredes externas, câmaras e túneis, seriam necessários aproximadamente
2.600.000 horas. Com uma equipe de 500 especialistas e máquinas poderosas de
corte de minerais (ou seja, praticamente todos os especialistas brasileiros e
alguns importados de países vizinhos).
Mas enfim, resolvida a logística de escavações e transporte, vamos colocar os
blocos uns sobre os outros:
Precisamos levar todos estes blocos de 90 toneladas, 12 toneladas e 2,5
toneladas até a sua posição na nossa Pirâmide. Sabemos que ela possuía 146m de
altura. A hipótese de rampas é ridícula, pois não podemos construir rampas com
inclinação maior do que 10%, o que significa que as rampas quando estivéssemos
no topo da pirâmide teriam 15 quilômetros de comprimento… Uma rampa destas
teria 5m x 145m x 1.450m, ou seja, 525.625 metros cúbicos de areia, suficiente
para encher (literalmente) 8 Maracanãs até o teto de areia.
A maior escavadeira do mundo, a Bagger 288, consegue movimentar 76.445 m3 por
dia. Este monstro demoraria uma semana só para construir uma rampa como a
descrita acima. Supondo, claro, que milagrosamente toda a terra movimentada
chegasse ao formato desejado da rampa, em um passe de mágica.
Vamos usar guindastes e gruas!
Podemos construir rampas metálicas de acesso para caminhões nos primeiros
estágios da pirâmide. Mas com o tempo, eles se tornariam complicados. No
primeiro andar, teríamos algo em torno de 53.000 m2 (230×230) para manobrar os
caminhões e guindastes GR 9.000, mas certamente precisaríamos usar muitos
guindastes para posicionar os blocos da base.
Para posicionar os blocos gigantes de 90 toneladas, usaremos guindastes da
Demac ou Lorain. Posicionar um bloco de 90 toneladas em um canteiro de obras
demora cerca de 3 horas.
Mas podem haver erros de ate 5% por conta do deslocamento, o que não aconteceu
na pirâmide original. Podemos então medir com sensores de laser (semelhante ao
que usam no metrô para alinhar os túneis) mas mesmo assim o balanço dos
guindastes poderia tirar os blocos do prumo. Sugerimos empurrar com um trator,
mas a maioria dos gigantes tratores empurra até 30 ou 40 toneladas no máximo.
Sugiro usarmos nossos peões de obra para empurrar. “Se o faraó conseguiu, nós
também conseguiremos”. (Afirmação ridícula pois isso seria totalmente
impraticável).
Pessoas empurrando blocos de pedra na areia fariam no máximo com que elas
mesmas afundassem quando começassem a puxar ou empurrar os blocos, sem que ele
se movimente. Se usarem troncos para “rolar” as pedras, precisariam pensar em
uma maneira de retirar estes troncos debaixo das pedras para serem usados
novamente. (embora nenhum botânico que eu conheça conseguisse me indicar uma
palmeira que aguentasse 90 toneladas de pressão).
Só para não parecer que eu estou exagerando… 90 toneladas é o peso de 78 fuscas,
compactados em um bloco de aproximadamente 2 x 2,5 x 5 m. Se imaginarmos
escravos muito fortes e marombados, capazes de puxar 200kg cada um,
precisaríamos de 350 escravos para puxar cada um destes 5.800 blocos. E estamos
falando de PUXAR, porque empurrar é impossível. Então como ajustar a posição
milimétrica dos blocos sem empurrá-los?
O segundo problema de empurrar é que isso poderia arrebentar o piso e a
terraplanagem.
Resolvido as primeiras etapas da pirâmide, usaremos então, o modelo de
guindaste MC310K12, um dos maiores guindastes em uso aqui no Brasil, para
elevar os blocos de 12 e 2,5 toneladas. Ele eleva 12 ton a uma altura de
57,50m, com uma lança de 70m. Com ele, conseguiremos construir até cerca de 50m
de altura… só ficaria faltando 100m para chegar ao topo.
Neste ponto do percurso, temos um problema, chamado Câmara dos Reis. Há dentro
dela uma pedra única de 50 toneladas, de mármore negro vindo (não quero nem
imaginar como) de Assuã. Como nenhum guindaste chegaria até a posição onde ela
está e as rampas de areia são impraticáveis, optamos por usar um helicóptero
militar, mas infelizmente, o maior helicóptero brasileiro, o Baikal, carrega
miseráveis 4 toneladas. Mesmo o Mi-26, o maior helicóptero de carga americano,
carrega apenas 20 toneladas. Então abandonamos os helicópteros…
Sem helicópteros, tivemos de construir uma rampa, usando estruturas metálicas
extra-resistentes combinada com um guindaste na ponta para içar a pedra. Tempo
estimado de operação: duas semanas.
E finalmente!
O Pyramidion... a última pedra, uma réplica da pirâmide, com 9m de altura
esculpida em uma única peça de mármore negro, pesando entre 30 e 40 toneladas.
Com as gruas e guindastes gigantes da era espacial, podemos fazer este trabalho
sem grandes complicações... Não, não podemos. Não existe tecnologia para isso
atualmente.
Claro que os prazos que eu forneci nesta coluna são para cada uma das etapas
separadamente. Quando construirmos a pirâmide, estas etapas terão de entrar
dentro de um cronograma de logística: enquanto as pedras são cortadas e
transportadas, outros engenheiros e peões estarão responsáveis pela colocação
delas no canteiro de obras. Trabalhando sem parar 24 horas por dia, 7 dias por
semana, sem feriados nem descansos (segundo os textos usados como base, os
“egípcios” trabalhavam apenas 3 meses por ano), estimamos a construção da
grande Pirâmide, com tecnologia atual, moderna e precisa, em cerca de 23 a 28
anos.
Faltou lembrar que todo este trabalho é para apenas UMA pirâmide, quando na
verdade, o conjunto possui TRÊS pirâmides e imensos salões e galerias (então
teríamos de multiplicar todo este trabalho por quatro…).
As pessoas acreditam nessa fantasia simplesmente porque as otoridades disseram
e pronto. De qualquer maneira, fica demonstrado a impossibilidade de cumprir
estas metas no prazo e condições descritas pelas ideias férteis de nossos
arqueólogos/estudiosos.
Agora… quem construiu as pirâmides e como, ninguém sabe… mas definitivamente
não foram humanos e muito menos escravos semi nus arrastando blocos de pedras
rampa acima no deserto.
Não MESMO!




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