(Psyche Abandoned by François-Édouard Picot)
... Era uma vez um rei e uma rainha que tinham três filhas. As duas mais velhas, embora bonitas, não despertavam nos homens a paixão arrebatadora que lhes causava Psique, a mais jovem, dotada de descomunal beleza. Julgando-se incapazes de pedi-la em casamento, por considerá-la divina, os homens passaram a fazer-lhe oferendas, e isso fez com que se esvaziassem os templos consagrados a Afrodite. Menosprezada, a Deusa em sua cólera resolve castigar a pobre mortal e ordena a seu filho Eros que a atinja com uma de suas flechas, de modo a fazer com que sua rival se apaixonasse por algum monstro e assim saísse de cena ...
Mas existe outo mito e muitos outros, sobre o tema.
Afinal, o que vem a ser, em essência, o Amor? Mesma pergunta fazia-se Sócrates, durante um banquete a 2500 anos. Claro, estamos longe de resolver a questão e talvez, definir o amor seja impossível.
O fato é que, dotados de razão, temos plena consciência de como nossa existência é breve e do quanto a solidão pode fazer parte dela. Talvez por isso, a natureza humana tenha inventado o amor, numa tentativa de dar aos outros aquilo de que mais temos necessidade, a de preencher essa nossa falta essencial. Ou talvez seja o amor quem nos tenha criado, e por capricho emprestado à nossa alma a chance de experimentá-lo.
Eros e Psique, respectivamente, são entidades mitológicas que personificam o amor e a alma. No idioma grego, Éros provém do verbo "Érasthai", que significa “desejar ardentemente”, a alma forma-se a partir de "Psýkhein", cujo sentido é o de “sopro de vida”.
Curiosamente, o Deus do Amor não toma parte nas epopéias de Homero (Ilíada e Odisséia), mas faz-se presente dali a algumas décadas na Teogonia, escrita nos fins do séc. VIII a.C. por Hesíodo, poeta camponês beócio. Até então, Eros era cultuado na Beócia apenas como agente fecundador dos animais e propiciador dos matrimônios, mas o poeta o transformará num deus primordial, a conferir com as cosmogonias mais arcaicas oriundas de outras regiões da Magna Grécia.
“No princípio era o Caos”, diz o poeta; “de onde surgiu Gaia, a Terra, de largos flancos, base segura para todos os seres, e Eros, o mais belo dentre os imortais, capaz de desequilibrar os pilares emocionais e de subjugar no peito de todos os homens e deuses, o coração e a sábia vontade.” (…) “A Terra, então, engendrou Urano, o Céu Estrelado, capaz de cobri-la por inteiro e de oferecer aos deuses sua base para sempre.”
Nos versos seguintes, a Teogonia nos revela que devido à presença de Eros, o amor universal, Gaia apaixona-se por Urano, e o abraça até ser fecundada, gerando muitos filhos e povoando toda a Terra.
Em sua concepção, Hesíodo não só enriquece as antigas versões da Criação, esparsas pela tradição grega, como sistematiza toda a genealogia dos deuses em torno do Amor, força primordial de atração, capaz por si só de justificar a união entre os seres e suas gerações.
Numa variante órfica, por exemplo, Caos e Nix (a Noite) é que estão na fonte cósmica; Nix põe então um ovo do qual nasce Eros; este, ao romper a casca em duas metades, faz nascer Gaia e Urano. Embora assuma distintas genealogias, quase invariavelmente Eros traz esse aspecto de potência vital do cosmos e transmite a toda e qualquer união sexual o padrão da primeira hierogamia (casamento divino), o enlace entre Céu e Terra, de onde derivam todas as formas viventes.
O I Ching, livro milenar de sabedoria taoísta, nos diz que “quando essa penetração recíproca se opera, Céu e Terra se harmonizam e todas as dez mil coisas se produzem”. É o signo da conjunção dos opostos, da união entre pares que se completam, yin e yang que se fecundam mutuamente.
No Brahmanismo encontramos o mesmo dinamismo na representação de Shiva-Shákti, divindade hermafrodita cujo aspecto masculino (Shiva) está perenemente se fundindo ao de sua consorte. Shiva, conforme dança, transforma-se em Shákti ao mesmo tempo que volta a ser Shiva, buscando reencontrar a unidade original por detrás da androginia.
Hesíodo influenciou Parmênides de Eléia, séc. VI a.c. o primeiro racionalista da filosofia ocidental. Em "Sobre a Natureza", Parmênides traça dois caminhos: o do Ser, ou da Verdade, a única realidade que existe, e o da Opinião, centrado nos sentidos e aparências. Sua segunda via está constituída por dois princípios: Luz e Trevas, de onde todas as formas aparentes se originam, sempre mescladas pela única força capaz de unir os princípios opostos fundamentais: o amor.
Outro filósofo, Empédocles de Agrigento, séc. V a.c. ao retornar da Sicília envolto por idéias da Escola Pitagórica, tentou unir num único sistema a “filosofia do Ser” de Parmênides com a “do devir” de Heráclito, que lhe fazia direta oposição. Para este último, o conflito é o pai de todas as mudanças, e a vida, numa alegoria, nada mais é que o resultado da tensão entre o arco e sua corda. Empédocles imaginou então o cosmos como uma esfera absoluta e fechada, homenagem ao Ser de Parmênides, mas pôs nela o conflito de Heráclito, fazendo de Philia (o amor), e Neikos (o ódio), as forças opostas e complementares inerentes aos quatro elementos (água, fogo, terra e ar) que, misturados entre si, geram todas as coisas mutáveis da vida.
Mas dentre os antigos, foi Platão (428–347 a.c.), sem dúvida, quem mais se dedicou a discutir o amor, tornando-o um dos pontos fulcrais de seu sistema filosófico. Toda a sua Obra procura estabelecer a via de relação entre o mundo incorpóreo e perfeito das idéias e o plano material das coisas sensíveis, ao qual estamos presos, em meio às meras imitações das formas puras. Se, por um lado, Platão revela ser a dialética o exercício capaz de nos alçar deste mundo denso das opiniões ao sublime mundo das idéias, em seu diálogo O Banquete, o filósofo nos oferece uma nova perspectiva para este salto evolutivo. Propõe que pela ascese erótica cheguemos a essa contemplação, pois a alma, quando quer que se deixe levar pelo amor, vislumbra a própria divindade. Eros é, pois, o mediador entre as vicissitudes da realidade imediata e as verdades transcendentes.
Em 416 a.c., numa festa na casa de Agaton, que comemorava um prêmio recebido por uma de suas Tragédias, os convidados se propõem a competir discursando sobre o amor. Fedro de Mirrinote, primeiro a falar, mostra o amor como o mais bondoso dos deuses; Pausânias, em seguida, distingue o amor sexual do espiritual; e o médico Erixímaco trata o amor como uma força organizadora do cosmos. O comediante Aristófanes narra então um mito acerca dos andróginos e a separação dos sexos, e é seguido pelo anfitrião, que se põe a louvar deus Eros, enaltecendo sua beleza, vendo-o como fonte de inspiração. Convidado especial do banquete, cabe a Sócrates falar por último. “Não poderei fazê-lo”, ele diz, argumentando não reunir talento para tanto diante de tudo que já fora exposto. Mas os presentes, inconformados, cobram dele uma opinião. Ponderando, o sábio diz que falará então à sua maneira, sem fazer elogios e sem querer competir. Aplica então a maiêutica aos discursos apresentados, pergunta a todos sobre a verdadeira essência do amor e, evidentemente, ninguém sabe defini-la.
Sócrates introduz então um mito que diz ter ouvido da sacerdotisa Diotima de Mantinéia: quando nasceu Afrodite, os deuses banqueteavam no Olimpo; mas haviam se esquecido de convidar Penúria, deusa da pobreza, que, após a festa, miserável e faminta, veio à caça dos restos enquanto todos dormiam. Nisso encontrou Poros, deus dos recursos, embriagado e prostrado no jardim dos deuses. Deitou-se com ele, e concebeu Eros. “Eis porque o Amor se tornou amante do belo e servo de Afrodite, pois foi gerado em seu dia natalício”, explica Sócrates. Assim como sua mãe, o amor vive faminto e sedento, deseja preencher-se; como o pai, encontra sempre expediente para alcançar o que deseja.
O mito revela uma grande lição: amar é desejar o que nos completa, é a possibilidade de preenchimento pleno, uma busca pela perfeição. O amor se vale de todos os recursos para aplacar a dor da falta, e procura pela forma pura e perfeita. Amar é desejar o belo em sua essência, para além do mundo das ilusões. Mas onde se encontra a beleza no mundo das formas corpóreas? O que de fato amamos quando amamos as coisas belas? São perguntas que decorrem do discurso socrático. Ora, nos corpos físicos, a união do amor gera a imortalidade dos pais nos rostos de seus filhos, e nas almas belas o amor floresce em pensamentos e atitudes com sua beleza compatíveis.
Por esse mito fica evidente o quanto Platão procurava romper com a tendência de se enxergar Eros como um deus primordial todo poderoso. Uma das conquistas de sua Academia foi “baixá-lo” no Olimpo, trazendo o amor para uma realidade bem mais próxima dos humanos.
O leitor, portanto, sinta-se convidado ao banquete de Platão. Ainda que não saiba definir o amor, que sorva cada gota de seu néctar, experimente de todos os seus pratos e participe da alegria dos presentes. Talvez por isso os gregos reservem um mesmo termo, ágape, para designar tanto os banquetes como o amor fraternal.
Com o passar dos séculos, novas genealogias para o Amor surgiram. Umas têm Eros como filho de Hermes e Ártemis, outras lhe emprestam a paternidade do casal Ares e Afrodite; noutras fontes ele tem ainda um irmão que é seu contrário, chamado Anteros.
Mas foi o poeta latino Lúcio Apuleio (125-170 d.C.) quem compôs pela primeira vez a estória de amor entre Eros e Psique. Seu relato busca raízes na mitologia e (re)vela o cerne da doutrina platônica, ensinando-nos que a alma só pode ser feliz quando transformada pelo amor. Amplamente difundida, a versão de Apuleio tem servido pelos séculos como fonte de inspiração a escultores, pintores, literatos e músicos que imortalizam Eros e Psique em suas obras.

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