7/05/2022

La Danse du Sabbat


Pós uma sexta feira 13 e um evento celeste de certa importância, aqui está “La Danse du Sabbat”, às vezes atribuído a Gustave Doré, noutras a outro ilustrador francês, Émile-Antoine Bayard.

Nos registros de tradição místico/esotérica, em cada sexta-feira 13 o que se espera é o Sabhat das Feiticeiras. E a festança vem acompanhada do Treze... este símbolo numérico sugere feitiçaria e para muitos, sua ocorrência no calendário é prenúncio de azar. Toda sexta-feira, entretanto, acha-se associada à ideia do Sabhat, como ficou conhecido a partir da época medieval o “festim em que as Bruxas reunidas banqueteiam e festejam na presença do Demônio”. Também às sextas, à luz da Lua cheia, os amaldiçoados Lobisomens se transformam e os vampiros propalam-se em vôo, sedentos de sangue, à procura de suas vítimas. Mas, e quanto ao “maldito” número 13?

É o número da morte, do azar, do mau agouro, dizem alguns. Para outros, pode simbolizar a sorte por trazer em si as transformações, visto que o 13 representa o rompimento dos limites, a quebra dos padrões estatutários impostos pelo 12.

Vejam: o 12 expressa as coisas inteiras, os sistemas fechados e completos. São 12 os meses do ano, as horas do dia e da noite; também o número de Deuses do Olimpo e de constelações e signos do zodíaco; e 12 são as notas musicais, tons e semitons. Já o 13 é aquele que ultrapassa a ordem conhecida das coisas, promove a revolução do novo e se intromete em nosso mundo de modo a perturbar nossa aparente sensação de segurança. Associado ao jogo, às vicissitudes da vida, igualmente à sorte e ao azar, o 13 ainda compõe o número de cartas de cada um dos 4 naipes dos baralhos comuns. E eram 12 os apóstolos presentes à última ceia de cristo, de onde se criou a superstição medieval de que quando 13 se reúnem à mesa para comer, um deles em breve irá morrer.

Se a noite for de Lua cheia então, affmaria…

Na mitologia assírio-babilônica, data-se além de 8 mil anos a crença de que Sin, a Lua, tornava-se indisposta a cada plenilúnio, quando então se observava o sabattu, período de recolhimento dos homens em respeito à Grande Deusa e claro, às suas mulheres. Veja-se que provém da Antiguidade remota o útil conselho dado aos maridos para que estes não provoquem suas mulheres em fase pré-menstrual. Durante a indisposição de Sin, guardava-se o sábado, que primitivamente era mensal, dia considerado nefasto, no qual não se autorizava qualquer tipo de trabalho, nem viajar ou cozinhar alimentos. Sábado, em português, vem do latim sabbatum, que por sua vez foi emprestado do grego sábbaton. Este seria proveniente do hebraico sahabbat, que deriva do verbo sabat (parar). Em meio às divergências semânticas, muitos acreditam que a igreja, em sua obstinada caça às Bruxas, tenha julgado conveniente escolher um nome da tradição judaica, especificamente aquele que denota o período de oração que se inicia ao pôr do sol das sextas-feiras, para nomear o conclave das feiticeiras. Agindo assim, transformaria judeus, Bruxas e demais hereges, em inimigos comuns da fé cristã... muito conveniente, não é mesmo? Além disso, no início das perseguições, denominava-se “sinagoga” o local escondido nas florestas destinado à reunião das Bruxas.

Um pouco mais de pesquisa e encontramos o termo grego sabbathéos, literalmente “o Sabbhat Divino”, relacionado às sabátidas, festas dedicadas a Sabácio, o Deus Cabrito, Divindade da Ordem dos Cabiros, conhecida na Trácia e na Frígia, com atributos similares aos de Dionísio, ainda que não tão popularizada quanto este. As sabátidas já ocorriam anteriormente aos patriarcas bíblicos; e a seu Deus eram consagrados o trigo e a cevada, da qual se fermentava uma bebida inebriante, servida aos presentes. Sabácio era representado com chifres na cabeça, semelhante a Dionísio. Pan e Príapo eram igualmente cultuados nas sabátidas, ambos representados pela figura de faunos ou bodes, ou pelo falo que os substituía, espécie de bastão que todos traziam à reunião, invariavelmente noturna, na qual banqueteavam os convivas, sentados no chão sobre peles de animais caprinos, com as quais também se cobriam encarnando seu comportamento e imitando seus berros. Nesse culto agrário, uma virgem nua, símbolo da fertilidade, em alusão à Demeter (a Mãe-Terra), deitava-se sobre a mesa ritualística e recebia sobre o ventre as oferendas, geralmente o trigo e a cerveja, sendo ela própria após o banquete, oferecida à divindade caprina dona da festa, sempre encarnada por um sacerdote com máscara e chifres, vestido com pele de cabra, assim como os demais presentes. Ao final da festa, invocava-se o raio, talvez alusão ao mito dionisíaco, posto que esta divindade antes de renascer da coxa de Zeus fora fulminada e esquartejada por raios dos Titãs. Também a já desvirginada do altar, arrancava com sua boca a cabeça de um sapo e a cuspia ao chão, em alusão às Mênades possessas que dilaceravam os animais conforme descreveu Eurípedes de modo perturbador nas Baccantes. Estes eram os originais pagãos, cujas festas celebravam no pago, isto é, no próprio povoado, geralmente nos campos de suas comunidades, muitíssimo diferentes dos ritos da atualidade, cheios de glamour, comidas finas e selfies, muitas e muitas selfies.

Esta ilustração foi feita para a “Histoire de la Magie” (1870) de Jean-Baptiste Pitois, mostrando um imponente Diabo com cabeça de bode, em um altar com tochas acesas, vejo uma Bruxa cuidando de seu caldeirão, varinha erguida, comandando o rito. Abaixo, vemos o festejo de Bruxas e Demônios girando em torno do altar, dançando em círculo, observados por outros seres ritualísticos. Parece uma cena bem alegre, até notarmos as forcas ao fundo (gosto de imaginar clérigos e políticos pendurados alí). 

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